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The Magic Kingdom of Fifa

Lucas Dantas é carioca, meu amigo, rubro-negro, jornalista, chato pra cacete, baba ovo de gringo e que discute comigo a cada 10 dias por isso. Mas é boa gente. E escreve muito bem.

Foi ao Maracanã e teve uma visão diferente da maioria, inclusive da minha.  Então, abri o post pra ele aqui.  Divirtam-se.

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Você já foi à Disney? Se não foi, tens uma oportunidade muito parecida aqui bem pertinho de você. Vá a um jogo da Copa das Confederações num dos novos estádios arenas que estão espalhados por aí. E isso não é pejorativo não, pelo contrário.

Pedindo licença ao dono deste espaço, eu vou ao Maracanã desde 1983, num Fluminense x América, levado pelo meu pai (torcedor do América). E ontem, depois de quase cinco anos, voltei. Moro em São Paulo desde 2006, por isso minha frequência no estádio não foi muito regular nesse tempo.

Vou falar para vocês. Durante muito tempo eu reclamei do Maracanã como eu conhecia. Arquibancadas ruins, acesso ruim, torcidas organizadas insuportáveis que passavam carregando todo mundo e agindo como uma granada prestes a explodir, sistema de som precário, chuva que entupia todo mundo na parte superior das arquibas, preço oficial e preço “to cobrano isso, cumpadi” dos vendedores, iluminação fraca, PM babando para pegar qualquer um… E eu ia sempre. Maracanã era como sexo. Era ruim, mas era bom.

Depois que visitei estádio no exterior, aí sim passei a querer mais ainda que aquilo fosse abaixo, mas sempre amei demais aquele espaço. Sei lá explicar isso. Só que ontem eu conheci o novo e me senti mesmo na Disney, como falei lá em cima. Explico.

Da saída do metrô ao meu lugar no estádio não levei míseros 10 minutos. E olha que saltei na estação Maracanã e fui andando até o portão B. Voluntários muito educados, prestativos, sorridentes, exatamente como você encontra nos parques americanos, que você pode mandar o cara praquele lugar que ele dirá, sorrindo, “ok, sir”. A temida revista não passou dum detector de metais e logo eu estava subindo a rampa. Meu lugar – nível 2, bloco 201, fileira A, cadeira 8 – estava lá, livre como deveria ser.

Aí comecei a ver o colorido Maracanã, agora sem setores, todo único. Sentei onde normalmente ficavam as outras torcidas, admirando a do Flamengo. No telão, vídeos com músicas alegres e gente sorridente. Vendedores de comida cara, pessoas fantasiadas, famílias tirando fotos, todo mundo sorrindo. De repente um anúncio sóbrio e os times entram com mais música feliz. Podia jurar que a qualquer momento ia aparecer a Shamu e começaríamos a tomar banho de piscina de baleia.

A torcida do Flamengo começou a puxar um “meeeennngoooo”… As outras vaiaram. Os hinos começaram. Ninguém conhecia o do México (exceto, claro, os mexicanos). Todos aplaudiram o italiano. Nas escalações, a geração PS3 se fez presente quando Chicharito, Pirlo e Balotelli apareceram no telão. O atacante italiano, inclusive, fazia parte de uma minoria incrível que nunca imaginei ser possível no Maracanã. Poucos negros.

Para quem estava acostumado com um Maraca cheio da torcida popular, o povo brasileiro misturado, que paga 20, 30 reais no máximo por um ingresso, ontem foi um desfile de saltos, calças jeans apertadas mostrando curvas, óculos e relógios Tommy Hilfiger comprados nos outlet de Orlando, camisas da Abercrombie, muitos souvenirs comprados nas lojas, iphones em quase todas as mãos, povo sentado, pouco palavrão e ninguém fumando. E um pessoal predominantemente branco, como nas Copas na Europa.

Ninguém.Fumando. Isso mesmo. Além do lugar marcado, essa era uma regra que eu duvidaria muito que fosse pegar. Pegou. No meu setor, ninguém fumou. Nem maconha.

Como parte de testar os novos tempos, resolvei comprar uma bebida com o jogo rolando no primeiro tempo. Nada acontecia. Levantei do meu lugar e gol da Itália. Ainda na fila do refrigerante, gol do México. Bebida gelada, ok, mas atendimento tão rápido quanto um Cinemark. Devem ter recrutado os funcionários no mesmo lugar. Sem sacanagem, 10 minutos de jogo para comprar uma porra duma Coca Cola.

Caxirolas estavam proibidas, mas as matracas mexicanas se faziam presente. Muita gente mascarada, e lembro que a PM não queria deixar os atleticanos fazer isso há coisa de duas semanas.

E o telão que passava o jogo, com o tempo que faltava para acabar? Não vi placar eletrônico, vi essas televisões gigantes informando o tempo – que, se não me engano, era proibido – de 0 a 90 minutos, não mais dois tempos de 45. Aí sai um gol e o narrador, empolgado como se anunciando o PIB, anuncia o autor.

Brasileirices? Sim. Onde eu estava sentado era a fronteira para o paraíso VIP. Se eu quisesse pular, poderia fazê-lo sem medo. E um carinha quase fez. Ficou uns cinco minutos debatendo com um VIP que tentava convencê-lo a pular. Mas o cara pensou “pô, não, tem segurança, é evento Fifa”… quer dizer, viu que precisava duma pulseirinha e lembrou das outras vezes que foi convidado a se retirar de festas por estar sem essa pulseira e desistiu. O jeitinho brasileiro perdeu.

A experiência dentro do estádio estava ótima quando começaram a pipocar as infos dos protestos. E lembrei dos velhos tempos de Maraca quando não existiam as redes sociais e o pessoal falava de boca mesmo sobre os arrastões externos. Mas lá dentro era um paraíso. Nada dava errado. Tudo muito bonito, perfeito, como um esquema minimamente arquitetado. Como a Disney. E na hora de sair foi igual, deixei o estádio em coisa de cinco minutos. Voluntários, indicações, tudo perfeito. Não há o que reclamar, dentro do que me foi proposto.

Evento Fifa é isso. Padrão internacional. E não adianta nos acostumarmos, pois não será assim quando as torcidas voltarem e o padrão passar a ser Ferj. A Copa do Mundo é um evento internacional e organizado por uma empresa Suíça. Novidades para vocês: suíços são chatos. Logo…

Nós não estamos acostumados com isso. E a culpa é nossa mesmo, pois nunca nos preocupamos em ser assim. Não digo se é certo ou errado, apenas que é. Um jogo da Champions segue seus protocolos especiais, mas não muda muito de um jogo normal num estádio grande na Europa. E eles estão acostumados. Evento Fifa não é como uma coletiva do prefeito. É uma coletiva do presidente da ONU. Tem toda uma diferença a ser respeitada e nós teremos que acatar isso pelo menos nesses torneios.

Passando a Copa (e nem considero o intervalo que teremos até lá), podem ter certeza de que não teremos voluntários dispostos. Não teremos dezenas de portões abertos na entrada e na saída, porque a polícia acha que para nossa segurança é melhor abrir um só e espremer todo mundo lá dentro. Vai voltar a guerra da carne para comprar um cachorro quente. Não teremos lugar marcado respeitado! Vão voltar a fumar. Vão voltar a xingar. Vai ter PM separando as torcidas dentro do estádio daquela forma carinhosa a que estamos acostumados. Vai voar cadeira e qualquer outra coisa no gramado. E vai ter quem goste, pois acha que isso é o verdadeiro futebol.

Eu, particularmente, curti demais o novo Maracanã. Saudosismo? Lá em cima eu reclamava do Maracanã, não serei hipócrita. Não curti a roubalheira, mas que ficou um estádio espetacular, ficou. E se estou pagando caro pelo evento, quero um serviço que valha a pena. Se eu não quiser pagar pra ir pra Disney, vou no parquinho da praça. Mas não posso reclamar se tomar um copo de mijo na cabeça, da falta de educação e segurança, do desconforto, dos brinquedos quebrados, da chuva na cabeça, da demora pra ser atendido…. Tá no pacote.

Lucas Dantas
@lucasdantas

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