Cheguei, abri a porta de casa e estava tudo no lugar. Ninguém correu até mim, não havia uma coleira jogada na mesa ou um tapete revirado na sala.

Não havia nada.

Abri a geladeira e derrubei um pedaço de queijo no chão. Ninguém correu pra pegar. Meus pés estavam livres, eu podia transitar sem olhar para não tropeçar em ninguém.

Deixei a porta do quarto meio aberta por hábito, embora pudesse fechar porque o ar ficaria ainda mais eficiente. Me deitei sem ter que conferir a água e a comida, não tive que me esticar na cama pra conseguir dar um beijo de boa noite em quem, velhinho, não conseguia mais subir.

E então tentei dormir. Era a primeira vez em 16 anos que antes de dormir eu não sorria porque ele estava ali. Mesmo quando viajando, eu abria sua foto no celular pra ver. Doeu muito mais do que eu achei que fosse doer. E me preparo pra isso há exatos 16 anos.

Desde o primeiro dia, quando o segurei nas mãos, eu pensei: “e quando ele morrer?”.

Foram 16 anos, o amor aumentando, e dia após dia meu medo de perde-lo era maior e mais assustador.  Tivemos sustos, cirurgias, momentos em que eu perdi o controle sobre o bem estar dele e descobri nesse período que a única coisa que me tira do eixo na vida é não ter controle sobre algo que eu preciso proteger.

Agora faz exatamente 24 horas que meu telefone tocou com o Fred, meu veterinário de confiança, dizendo que havia acabado.

Serão milhares de vezes que vou sentir essa saudade. Mas hoje é a mais forte sensação que vou ter do quanto valeu a pena ter passado por isso e do quanto é insignificante a dor absurda que eu estou sentindo perto do que ele me deu.

Sim, eu faria tudo de novo. Mesmo agora, no ápice da dor, eu garanto que faria.

Virei alguém melhor todos os dias. Aprendi a dar e receber carinho, a me importar, a não ser egoista e, hoje, especialmente hoje, aprendi o quanto a gente perde tempo esperando o pior.

Eu me preparei pra perde-lo. Mas eu esqueci de prepara-lo pra partir. E então, um dia antes dele morrer, eu tive que ir até o hospital onde ele estava internado, sentar no chão com ele e dizer pra ele que ele podia ir.  Que ele não precisava sofrer aquilo tudo, que eu entendia e que ficaria bem.  Como se eu tivesse que convence-lo a não lutar mais contra aquela dor que o fazia nem me olhar direito mais.

E então ele se foi no outro dia, antes que eu voltasse a visita-lo.  Foi nossa despedida. E a última coisa que fiz foi dar um beijo na cabeça dele e dizer “obrigado”.

Eu sou ateu, vocês sabem. Mas hoje eu queria ser o cara mais religioso do mundo só pra acreditar que ele está em algum lugar que ainda vou encontra-lo.

E porque eu estou escrevendo isso? Porque eu quero pedir que vocês nunca percam um minuto do tempo com seu animal de estimação imaginando a morte dele. Vai doer, e vai ser pior do que você pensa. Então não pensa.

Eu pensei. Muitas vezes, todos os dias. Me torturei anos por algo que eu não podia dimensionar, programar e nem evitar.

Eu daria um braço só pra ver ele correr mais uma vez com o brinquedinho na boca me pedindo pra tentar tirar dele.

Bom, eu sempre disse que eu era ateu. Ele nunca me disse nada. Então…

Vai com Deus, filho. E me espera. “Pai já vem”.

RicaPerrone

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