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Prazer em revê-lo, Tricolor

Em 14 de julho de 2005 o São Paulo vencia brilhantemente a Libertadores sobre o Atlético PR no Morumbi. Desde então, por ter abandonado aquele brasileiro, o time mudou. Ganhou o Mundial do jeito que podia, pois em tese, não podia. Não havia futebol bonito, pois era o jogo do “detalhe”, e assim aconteceu.

Em janeiro de 2006 o clube começa a mudar. Contrata Muricy Ramalho, o técnico pragmático e que odeia o fator motivacional. Troca o presidente, e no lugar do ótimo Marcelo Portugal entra o também competente Juvenal Juvêncio, porém, de postura diferente.

O clube faz um Paulistão em queda livre. Começa bem e vai despencando. Na Libertadores, quebra tabus negativos, não joga bem e leva vaias no Morumbi. Mas, passa. Chega a decisão após uma partida fraquíssima diante do Estudiantes no Morumbi, onde Edcarlos fez o gol e levou para os penaltis.

Na final, outra partida ruim contra o Inter em casa, e uma de muito coração em Porto Alegre. Titulo com o Inter, merecido, inquestionável.

A sequencia de jogos ruins e pragmáticos começa ali. O time passa a entrar em campo cada vez mais “igual”. Entra, ganha, volta pra casa. Não há sustos, não há emoção, não há futebol bonito de ser ver, nem sequer agradável.

Juvenal mantém Muricy, que ganha o Brasileiro de pontos corridos sem apresentar um belo futebol, porém, com a base toda do campeão mundial, ainda consegue jogar algo convincente.

Vem 2007, um festival de teimosias do treinador e um primeiro semestre horroroso. Juvenal mantém, Muricy ganha o pontos corridos de novo. Jogando um futebol de resultado, chato de ver, mas altamente competente pela zaga que tinha. Foi o título da defesa. Mas, faz parte do jogo.

Nos mata-mata, segue o festival de apatia de um time que parecia decidir como se jogasse uma partida qualquer. Alguma coincidencia com o treinador ser contra fatores motivacionais? Meio óbvia a resposta.

2008 e a incoerência nos reforços. Chegam Adriano, Fábio Santos e Carlos Alberto. Jogadores que vão totalmente contra a tal filosofia do SPFC. Adriano deu certo, e levou sozinho o time até o Fluminense. Ali, parou. No estadual, parou também.

E novamente Muricy é questionado. Mas, ganha o pontos corridos, pois o SPFC sempre será forte neste torneio frio e de planejamento, muito mais do que de futebol em si. Ganha sem brilho algum, o pior campeão brasileiro que assisti na vida, acho. Termina o ano com uma bela arrancada, mas sem um grande jogo pra contar história. Sem um craque da conquista, sem o ídolo do titulo, apenas os números e o caneco.

Tem culpa? Não, tem mérito. Não foi o SPFC que inventou este tipo de torneio. Ele se aproveita bem dele, só isso.

Mas, nesta mesma medida em que os titulos nacionais vão surgindo e os fracassos em mata-mata vão se repetindo, surge uma postura estranha que nunca fez parte do clube. Alguns dirigentes começam a virar estrelas de TV e a pisar na cabeça dos adversários, ironizar tudo que não lhes diz respeito e começam um festival de “aqui, não!”.

O time não joga nada. Entra, ganha e sai de campo.

Sim, é isso que pretendem. Mas, e onde fica o futebol? Onde fica o ídolo, a paixão, a emoção, o drama, a derrota, o sofrimento, a vitória, a goleada, o golaço, o drible, o combustivel real do futebol?

Futebol não move as pessoas pelo placar do jogo. Move pela expectativa dele. Você consome futebol por 20 dias ESPERANDO um jogo, e apenas mais um dia quando ele termina.

E na era pontos corridos, você vai esperar o que se o time raramente sofre gols, raramente perde e raramente joga algo que valha um ingresso?

Pois bem, o SPFC segue sendo competente, mas segue sem brilhar. Segue sendo frio, segue sendo apático em decisões e regular nos pontos corridos.

Alguns usam o argumento dos titulos como ponto final. Mas desde quando há um ponto final no futebol?

O SPFC, como qualquer clube, não tem obrigação de ganhar nada. Tem obrigação de entrar, jogar e fazer o seu melhor. Se for suficiente para superar o adversario, ótimo. Se não for, é do jogo.

A derrota é tão apaixonante quanto a vitória. O drama é o motivo da paixão, não a frieza dos resultados simples.

Chega 2009, o time faz outro primeiro semestre ridiculo. Muricy, enfim, cai. Chega Ricardo Gomes, que não consegue mudar muito a postura do time.

O Brasileirão, ainda assim, quase fica de novo no Morumbi. É a prova final de que a condição é dada pelo clube, não pelo treinador ou pelo time de “craques”. Neste formato, SPFC, Cruzeiro e Inter vão sair na frente pela estrutura e pelo planejamento um pouco menos amadora do que os demais.

Chega 2010, a expectativa dos 200 reforços e nada. O time se arrasta.

Entra e sai do campo como se nada tivesse acontecendo. Até que, num dia comum, a coisa vira.

O SPFC entra pra bailar sobre o Universitário, um dos times mais ridiculos que ja vi jogar uma competição de alto nível. Ele consegue levar pros penaltis, onde obriga o SPFC, talvez pela primeira vez em anos, a sentir o drama de uma disputa, o medo de uma grande derrota, enfim, tudo aquilo que apaixona no futebol.

E o Tricolor vence. Suado, sofrido, mas consegue ver o Morumbi explodir. Há anos ele não explodia, porque ninguém explode em pontos corridos. É campeonato homeopático, que simplesmente mata a maior alegria do futebol que é o imponderável.

Ali, naquele momento onde as cornetas soavam, eu vim no blog e escrevi: “Pode ter sido uma boa”.

E foi.

O time do São Paulo não precisa de elenco, de jogador, de treinador, presidente, CT, nada. Tá tudo la. Entre questionaveis e inquestionaveis, é capaz sim de disputar qualquer titulo.

O que faltava? Tesão!

Sim, tesão! Aquela coisa de querer fazer o terceiro quando o jogo está resolvido. Aquela vontade de dar um carrinho e ver a torcida vibrar com ele. O prazer de ver a casa cheia, de fazer um belo gol, de sair aplaudido.

Não confunda vontade de vencer com vontade de jogar bola. Vontade de vencer o SPFC tem e sempre teve. O que não tinha era vontade de jogar bola.

Com aqueles penaltis, um despertador tocou. Rogério vibrando no meio campo, a torcida feliz, pulando, o time abraçado com o suor da conquista em cima do imponderável e não do planejavel.

Futebol, como ele sempre foi. Apaixonante. Pra você, pra mim e pra eles.

Jogadores também precisam estar apaixonados para fazer algo bem feito. E no SPFC ninguém se apaixona há muito tempo. É frio, um casamento de rotina, chato, com bons frutos, mas… sem vida.

E então, com o grupo motivado, encantando com a emoção da conquista, vem o Mineirão. E lá, vem a filosofia do regulamento na mão e da raça. O SPFC conquista outra vitória muito suada, dificil. mas sem jogar nada que encha os olhos. Até natural, o time não estava pronto.

Chega o tal “cara”. Aquele que mudou TUDO em 2005, e que pode mudar agora. Não porque ele é o Pelé, mas porque chama o jogo e FALA em campo.

Acaba o time de mudos, acaba a falta de referencia, acaba a falta de liderança na frente, acaba a apatia e o time sorri. Eles driblam e dão risada. Vibram com os gols, se abraçam, pulam, vivem o jogo.

Resultado? O Tricolor entra em campo e joga uma partida fantástica diante de um dos maiores clubes do mundo, que é o Cruzeiro.

Teve olé, bola na trave, golaço, drible, raça, suor e, finalmente, paixão!

Aquela cena dos jogadores juntos agradecendo a torcida no meio do campo mostra bem tudo isso. Não é entrar, vencer e sair.

É entrar, sentir o clima, aceitar o jogo, buscar o melhor e sair cansado, suado, morto, mas… com a sensação de ter ido ao limite.

Pode perder! Foda-se, faz parte. Mas aceite o jogo. A covardia não condiz com a camisa do São Paulo.

Ontem, depois de muito tempo, eu vi o São Paulo em campo.

Não aquele que vence apenas. Aquele que apaixona.

Bom te ver de novo, Tricolor.

abs,
RicaPerrone

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