O Flamengo não consegue vencer jogos onde é muito favorito, pois seu passado o faz temer o pior e ele, geralmente, se repete. O Corinthians não consegue ganhar a Libertadores porque a síndrome de pânico que evolve a história do clube e a competição dificultam 10 vezes mais que o normal.

No Botafogo basta ser favorito para o medo de repetir o fracasso ser mais relevante do que a vontade de vencer. Não importa o campeonato, nem o time, nem o local. Basta um pedido para confirmação de grandeza e lá vem o pânico.

Outro dia escrevi um texto aqui dizendo que não entendia o nível de cobrança da torcida do Botafogo. Muitos concordaram, outros acham que não, que é pra vaiar, cobrar, etc.  Eu ainda parto do princípio que, na lama, é melhor tentar sair juntos do que afundar todos reclamando. Mas…

Ontem, de novo, o Botafogo tinha que vencer. E de novo, como quase sempre, quando é favorito e tem obrigação de ser, não reage bem.

Desde o Juventude no Maracanã lotado, desde sei lá que final de estadual, o Botafogo não aguenta ouvir dizer que é favorito.  Situação que não cabe a um time grande, pois é exatamente esse poder de suportar a condição de favorito que lhe diferencia.

A sequência de investimentos patéticos acabou. O time está montado, mantido e em dia. Não há mais como colocar na falta de pagamento, na falta de um campo, de um lugar pra treinar. A conta é outra, mais simples.

Do porteiro ao centroavante, passando também pela torcida, ser botafoguense dá medo.

Todos eles tem aquele discurso de “sofredor”, aquela carinha de “vai dar merda” e aquele pessimismo que chega a irritar até mesmo o rival, que não quer confrontar um derrotado mas sim outro grande campeão.

E sim, o Botafogo é um grande campeão. Pena que nem ele se enxergue desta forma as vezes.

O Fogão é aquele cara muito inteligente, bacana, tirou notas boas, fez bons cursos mas que não consegue sair do emprego intermediário e do salário comum.  E vê, com raiva, os menos estudados ganhando mais, as vezes sem ter nem metade do seu bom curriculo.

E aí ele se acostuma com isso, faz da sua situação uma “piada” de “má sorte” e pior, acredita nisso.

“Coisas que só acontecem com o Botafogo”, ou discursos como os daqueles intelectuais da bola que dizem: “Não podia dar Botafogo. O estádio estava lotado, a tocida do Botafogo não lota. Aquilo não era Botafogo”, discursando sobre a derrota pro Juventude, por exemplo.

Podia sim, deveria ter dado, mesmo que esse rótulo místico de fracasso engraçadinho tenha sido tão bem plantado e regado ultimamente.

Em 95, campeão, o time teve Tulio, Donizete, Beto… opa! Será que estes caras tem esse perfil “perdedor acostumado” que hoje alguns assumem? Não, não tem.

Talvez seja essa a diferença.

Abreu é, hoje, o anti-Botafogo. O marrento, o que se garante, o que se acha superior. E a torcida o adora, porque é óbvio que vão adorar um cara que representa tudo aquilo que o clube não consegue representar ha anos.

Alguns caem na pilha de que o Fogão não é time grande, o que considero pouco discutível diante de sua história. Outros se acomodam no discurso de “sempre sofredor”, e outros se revoltam, como quem descobre hoje que há 20 anos o clube aceita tudo de pior e acha justificativas no além, no “sobrenatural”, onde for. Menos onde precisa, que é nele mesmo.

Jefferson, ontem, incoerente, errado, fez o que falta ao Botafogo. Foi marrento, meteu o dedo na cara, chegou quase a ser estúpido condenando um rival de fazer algo que seu time faz e aplaude.

Mas então não era pra ter feito! Não! E foda-se, porque o Botafogo precisa com mais urgência do que um beque ou um lateral uma dose de marra que faça dele um time que irrita os adversários, que desafie a lógica de um clássico e não um time que, se perder, fará uso do discurso pronto do juiz, da sorte e das coisas que só acontecem com o Botafogo.

Não precisa ser o Vasco do Eurico, o SPFC do Juvenal. Mas ser o oposto extremo, aquele que se junta pra chorar na coletiva pós jogo, pior ainda.

Grandes não causam pena. Causam medo, inveja e raiva.

O Botafogo não é digno de pena, mas hoje está longe de ser motivo de “medo” ou “raiva”.

É piada pronta, partindo dos rivais com a assinatura dos seus, que adoram confirmar que “O Botafogo só se fode”.

“Precisa beque”, “precisa lateral”, “precisa meia”, “o problema é técnico”, “com 3 zagueiros não da…”….  Pára! O problema não é esse ou, melhor, não é “só” esse. Talvez nem seja tão relevante o lateral, o meia ou o esquema de 3 ou 4 zagueiros.

O relevante é a postura. É o respeito que o Botafogo está deixando de colocar por não saber ser marrendo, ousado, “folgado”, quase “escroto”.

Não é pra Oswaldo, nem pra Caio Jr. É caso pra Renato, pra Felipão.

Você gosta? Não, talvez odeie. E é isso que falta ao Fogão.

Odeie-o, mas não seja indiferente a ele.

Acredite, moro em São Paulo há 33 anos, não tenho um pingo de dúvida em afirmar: O Botafogo é o grande que menos coloca “medo”  nos adversário.

Você respeita, é claro. Mas nunca vai a uma “batalha” no Engenhão. Vai a um jogo onde, diga-se, você raramente se considera azarão.

E que gigante é esse que ignora seu real tamanho e aceita, ano após anos, uma situação menor?

Não é a diretoria atual, não é o elenco, nem o treinador. Isso é uma história, não uma fase de 3 anos.

Não adianta dar pro Maicosuel  a conta do Dimba. Não cobrem do Abreu os gols que o Dill perdeu.

Talvez você considere que eu esteja desrespeitando o Botafogo ao dizer tudo isso, mas na real eu estou respeitando mais do que muito botafoguense que se acostumou com a idéia do “meu time só se fode”.

Atitude, arrogância, marra, escrotidão. Ingredientes que em doses exageradas transformam um vencedor num babaca. Mas que na falta da dose mínima transformam gigantes em perdedores.

O Botafogo não é um perdedor, nem um clube que “só te fode”.

Menos ainda, hoje, um clube que “se garante”.

abs,
RicaPerrone