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“E eu não sou diferente”

É comum ligar a tv ou o rádio e ouvir um boleiro dizer: “Todo jogador sonha em jogar na Europa e eu não sou diferente”.

Incomum é achar um que “seja diferente”. Natural, pois é assim na vida. A maioria “não é diferente”, seja na profissão que for.

Me incomoda saber que, como a maioria deles não sabe falar, pensar e nem o que querem da vida, sendo quase todos “iguais”, nós estamos lascados.

Jogador de futebol virou um bichinho de estimação do empresário. Ele nasce,  cresce, quando começa a fazer gols o empresário dobra a ração e leva passear.

Aí compra coleira nova, transforma o cara num imbecil que não pode responder pelas suas próprias vontades e vai “controlando” o bichinho até ele mesmo se conscientizar que não manda na própria vida.

Aí vem a tv, ou em especial uma delas, que fica metendo na cabeça dos caras que “jogar na Europa” é do caralho!  Que os times de lá são perfeitos, que os juizes são ótimos, que tudo lá funciona.

Esquecem, obviamente, de explicar pra essa molecada mais novinha (que inclui torcedores e jogadores) que lá só tem uns 10 times grandes, somando o continente todo. Aqui, só no nosso país, são 12.

Mentem quando dizem que é duro jogar na Europa. Porque se é duro bater no Getafe o ano todo, eu não sei mais o que é moleza.

Exaltam os nacionais de lá como se eles fossem um campeonato decente. Não há campeonato decente onde os mesmos 2 ou 3 clubes abrem 20 pontos de vantagem todo ano pros demais em 10 rodadas.

A Europa é supervalorizada pelo futebol brasileiro por 2 motivos óbvios:

1- Brasileiro é bobo e adora achar que o dos outros é melhor, sempre. Daqui a pouco vão achar que grego faz samba melhor que a gente também.

2- As emissoras de tv que NÃO PODEM PASSAR nada daqui ficam enchendo o saco com esses campeonatos europeus e fazendo nego acreditar em papai noel.

Mineiro foi “jogar na Europa”. Cadê ele? Tá feliz?

O Giuliano, do Inter, está indo pra um clube que eu garanto que nem ele sabia existir. Mas ele vai, afinal, “ele não é diferente”.

Jogar na Europa é grife.

Aqui se ganha, hoje, perto do que se ganha lá. O cara não sai mais para ganhar 500 ao invés dos 100 aqui. Ele vai ganhar 450 ao invés dos 300 aqui. O que na minha opinião já se torna discutivel, pois certas coisas não tem preço.

Vai jogar no Real? Porra, sensacional! Milan? Manchester? Ótimo.

Agora… tu vai trocar um Inter, um Santos, um Flamengo pelo Besiktas, pelo Shalke 04 e vem chamar isso de realização profissional?

Nem no bolso, meu camarada. Porque daqui 6 meses só sua mãe lembra de você. E isso é DESVALORIZAÇAO, não crescimento profissional.

Será que o Ibson, aqui, na seleção, não valeria e teria ganhado mais na vida do que estando perdido lá pela europa?

Será que o Thiago Neves não perdeu a chance de ser o reserva do Elano nessa Copa passada porque se meteu na Arábia?

Acha que ganhou uma nota, e deve mesmo ter ganho. Mas…. e aí? E depois? E o quanto você desvalorizou o produto por essa escolha?

Existem casos e casos, não dá pra julgar todos como ruins. Pelo contrário, a maioria deles, principalmente os grandes nomes, saem pra times grandes e pra ganhar alto.

Mas tem uns que são humoristas.

Esse papo nojento de jogador no aeroporto dizendo que “todo mundo sonha em jogar na Europa e eu não sou diferente” beira a lavagem cerebral coletiva.

Vou idolatrar o jogador que, hoje, for na tv e disser: “Eu sonho em jogar no Vasco. Não tenho planos de ir pra fora do país”.

Este sim, será diferente.

Este sim, terá alguma meta na vida que não seja repetir igual um papagaio o que dizem por ai.

Grandes merdas “vencer no Hamburgo”.  Bela porcaria ser ídolo no CSKA.

Se isso é sucesso na carreira, jogar com a 10 do Flamengo, do SPFC ou de qualquer grande aqui deveria ser motivo de alucinações pro jogador.

Mas, pra vender campeonato tosco ou por mera síndrome de vira-lata, preferimos sempre exaltar o de fora e nos colocarmos num patamar inferior.

O que não é mais verdade, e é só ligar a tv e assistir a jogos do mundo todo pra ver isso. Hoje, num geral, não devemos pra campeonato nacional nenhum.

Hoje, temos condições de pagar e seduzir 85% dos craques brasileiros a voltarem. Mesmo os que não podem, chegam a conversar e tentar a volta.

Hoje, lá, eles estão mostrando as dividas que criaram ao pagar aqueles absurdos pra jogadores e técnicos.

Hoje a América do Sul se afunda, os clubes estão quebrados, a Libertadores está virando um torneio brasileiro, porém…. o Brasil só cresce, e os times daqui idem.

Tá na hora de começar a sonhar em jogar no Brasil de novo, né?

Tá na hora de desligar o playstation e parar de achar que o Xavi jogou mais que o Pelé, porque ele não jogou mais que o Pita…

E está mais do que na hora dessa molecadinha largar a mão de ser burra e sonhar com algo glorioso em seu país, num time realmente grande e não perdido no gelo europeu só pra dizer: “eu jogo na europa”.

Tá na hora de “ser diferente”.

abs,
RicaPerrone

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