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Devolvam minhas paixões

Eu não sou um cara preconceituoso.  Mentira, eu sou sim, como todos nós somos.  Talvez a diferença é que em alguns aspectos eu não tenho problema algum em admitir isso, assim como não acho um absurdo do tamanho que colocam você se sentir desconfortável perto de pessoas “diferentes” de você. É do ser humano, e desde que não haja agressão ou falta de respeito, não vejo problemas.

Eu sou do estádio, sou do samba, sou do boteco de chinelo na esquina. Se deixar eu passo 1 ano sem por um tênis. E se eu fosse menos gordo andaria, também, sem camisa.

Eu converso com os porteiros do meu prédio com mais interesse do que quando encontro um “playboy” louco pra discutir o pênalti de ontem a noite. Simplesmente porque parto do principio inconsciente de que no estádio estava o porteiro, não o playboy.

Quando vou pro samba, ligo pros meus amigos mais simples. Não porque eu pense antes de fazer isso, mas porque é cultural, quase automático.

Eu não discuto o samba enredo que saiu na Portela com o diretor da empresa que faz negocio comigo. Discuto com o meu camarada que toca na bateria da Perola Negra, escola do meu bairro.

As coisas que eu gosto, tirando F-1, não são caras. Onde eu ando não tem gente rica.  E eu não gosto de conversar com gente rica.

Eu sou preconceituoso, como todos nós, o tempo todo.

Eu entro num estádio e vejo todos sentados, de tênis de marca, camisa nova, sem bandeiras, sem fogos, sem nada. Eles reclamam do time do primeiro ao ultimo minuto, pagam 100, 200 reais pra ver um jogo e na saída gritam que vão matar não sei quem, que são foda, que são isso, etc.

Cara… vocês só enganam a vocês mesmos. Qualquer pessoa que conheça um pouquinho a vida e o mundo real sabe que você, de tenis bonito, camisa polo e com 200 paus pra ir num jogo de merda quarta a noite não mata nem barata. E se matar, é armado.

Assim como sabemos que, em bando, torcida organizada é o que é. Sozinhos, são covardes iguais os citados acima.

Macho mesmo era o cara que ia pro estádio todo fodido no trem, com os 5 cruzeiros do ingresso contados na carteira e só pensando em se divertir, tirar sarro, gritar, torcer, tomar uma e voltar feliz.

Ele ficava triste quando perdia. Hoje ele fica puto.

É diferente. É lamentavelmente diferente.

Futebol virou guerra. Você não pode mais ver o jogo com seu amigo do outro time. Até porque, pra alguns, hoje em dia nem se pode tolerar ter amigos de outro time.

Você não pode quase nada.

Entro nos dois ambientes que mais adoro e conheço na vida e tenho a mesma sensação.

Quando vou ao samba, vejo centenas de playboys que não sabem NADA do que está acontecendo ali, mas que acham que vão se passar por “malandros” por irem a um lugar onde, um dia, foi de bons malandros.  No outro dia, foto no orkut: “Nós no samba, tá ligado?”.

Aí eu não vou mais. Por preconceito, talvez. Ou meramente por ter perdido o sentido pra mim.

Respeito? Claro. É pra todos.

Mas samba não custa 50 pra entrar. Se custa, não é samba.

Futebol é lazer. Se meu futebol custa 60 reais uma arquibancada, não é mais futebol. É evento.

E quando você cobra de um cara um valor destes, você está não apenas lhe dando direito de se revoltar em caso de um “não espetáculo”, como também está trazendo um tipo de gente que não é daquele lugar.

O futebol é pra todos. Mas tem setores, sempre teve.

O rico na cativa, o pobre na geral.

Sem geral, só vai o rico. Só com eles, não há futebol.

Não sou contra que o ingresso custe 200. Ao contrário, pode cobrar mil! Mas não pode esquecer daqueles caras dos “dez real”. São eles que fazem o show, e é por causa deles que o futebol é o que é no Brasil.

Esporte de massa. Esporte popular.

Acho que não preciso de dicionário.

Clássicos onde as famílias não podem ir. Além do jogo em si ser uma merda por não valer nada o estadual, eles metem num estádio longe, cobram uma bala e ainda tem que encarar o atestado de covardia e incompetencia da policia.

Sim, é o que penso.

Policial é pago (bem ou mal) pra defender os sujeitos de bem daqueles que não sabem se comportar em sociedade. Se 10 pegam latas e atiram nas pessoas, a polícia tem que prender os 10, não proibir os outros 50 mil de usarem latas.

Mas é mais fácil. Eles proibem, e os estádios em SP perdem outro espetaculo, que é o da torcida.

Se torna apenas o jogo, a modernidade, a raiva, o ódio pelo rival, a violência e o ingresso caro.

Pernil lá fora? Não. Proibiram.

Cerveja? Não. Não pode.

Se eu quiser levar meu filho e o amiguinho dele, que torce pro outro time, não posso. Juntos eles não podem ficar, pois em virtude de uma parte ter virado animal, todos tem que ficar na jaula.

O gol do titulo? Raro, pois copiaram a Europa e não tem mais “gol” e nem “heroi” do titulo. Pontos corridos não tem isso…

Eu vou a Sapucai todo ano com um sorriso na cara sem tamanho. Não pelo evento apenas, mas por ver centenas de pessoas que juntaram um ano pra estar ali, e ver que em meio a tantos turistas ricos, quem manda são os que juntaram a grana.

Não há, ainda, esta inversão na arquibancada.

Na escola há. O gringo desfila a 300 paus e o cara da comunidade, talvez, não consiga a grana pra desfilar.

Mas lá em cima, onde manda o povo, ainda há uma dose romantica e pura de paixão e alegria.

Eu sou Mocidade. Eu não quero que a Mangueira morra ou seja destruida pela chuva.

Eu não vou agredir o cara do lado de fora se a camisa dele for da Portela.

Lá, por enquanto, e até pelos altos valores em setores diferenciados, os que vão pra dizer que foram não conseguem superar a raiz daquilo tudo.

No futebol, em virtude da overdose, da mania estúpida da imprensa em exaltar apenas o resultado, transformando o lazer num mero ringue de vencedores e derrotados, a coisa se torna mais animal, agressiva.

Eu não discordo do jornalista. Eu mando ele se foder.

Eu não mijo mais no cara que senta na frente, o que é uma evolução. Mas ele também não pode comemorar o gol, porque se fizer, eu quebro a cara dele.

Este é o cenário. Este é o futebol.

Das cabines, talvez, muitos nem notem a diferença. Mas da arquibancada, quem foi lá atrás e volta hoje, se sente perdido.

O futebol não é mais para os mesmos. Azar dele.

E o samba, que ainda tenta salvar o que sobrou, pode ter nos gramados um otimo exemplo para brigar pela sua raiz.

Pastel é na feira, na praia se vai de chinelo e lugar de playboy não é com o povão.

Playboy não é aquele que tem dinheiro. É aquele que age como quem tem muito dinheiro.

O sambista é do samba. O sertanejo é do sertanejo. O playboy é do que estiver na moda. Por isso criam o sertanejo universitário, os pagodinhos de merda, etc. Pra vender pra quem quer usar a grana pra estar na moda. Só.

Do jeito que está, próximo clássico estadual não será nem no Pacaembu, nem no Morumbi, muito menos em Barueri.

Em breve, Palmeiras e Corinthians se enfrentarão no Credicard Hall, para miseras 5 mil pessoas, que escolherão entre poltronas, cadeiras e mesas vips.

E eu não vou assistir, comentar e nem sequer me importar com este jogo.

Devolvam meu futebol.  Salvem o que sobrar do samba.

Cada um no seu quadrado. Desde que haja quadrado pra todos.

abs,
RicaPerrone

Essa é em homenagem ao meu amigo André Rossi. Mangueirense, são-paulino, fã do Botafogo.

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