Você já foi a um samba?

Eu não me refiro a um pagode num bar com camisa polo e calça jeans. Me refiro ao samba. Talvez, como eu por boa parte da minha vida, você desconheça o que de fato chamam de “samba”.

Não é nem mesmo um ritmo definido. Confunde-se com pagode, samba enredo, até mpb é samba. Talvez porque samba não esteja no ritmo e nem na batida. Mas sim no ar.

Num samba você sorri pro inimigo. Se olhar pra mulher errada é capaz de abraçar o marido e se desculpar. Ninguém discute. Ninguém está puto. Tem algo que não sei colocar em palavras.

Tem senhoras de idade, crianças, gays, negros, brancos, pobres, ricos, e nenhuma possibilidade de separa-los só pelo olhar. Talvez o mais rico esteja de chinelo, o mais pobre no palco tocando pra você. Não se sabe.

O que se sabe é que samba é um pretexto. Tal qual o futebol e o churrasco, você não vai com uma finalidade prática. Ninguém vai ao samba pra ouvir samba apenas.

Vai porque quer paz. Alegria, a leveza de repetir as mesmas músicas toda semana, até mais de uma vez no mesmo samba, e ainda assim erguer os braços, fechar os olhos e se emocionar com ela.

“Madureiraaaa…” e pronto, todo mundo sabe que é hora do “lalaia”. Todo mundo tem o “seu samba”, como Arlindo tem o “seu lugar”. E quando ele toca parece só seu.

Todos te entendem. É absolutamente comum ver alguém rodando de olhos fechados numa música e ninguém em volta repudia. Porque “a sua hora vai chegar”.

Cerveja gelada e de garrafa. Não tem espumante. No máximo uma caipirinha.

No samba o petista e o bolsominion cantam “insensato destino” juntos brindando. E juro, não é droga. Aliás, é disparado o ambiente festivo/musical onde vejo menos drogas.

Sambista não fala mal do rock, do sertanejo, do funk. Não compete. Junta.

Samba é ser brasileiro. Não gostar dele é renegar uma cultura e não um estilo musical. E mesmo se você não gostar da música, é impossível você não gostar DO samba.

Se o Brasil fosse um país sério o hino nacional seria tocado no cavaco, cantado pelo Xande de Pilares, com o Wander Pires anunciando que a hora é essa.

Teria paradinha pro refrão, brinde pro “filhos desse solo és mãe gentil”, e o Zeca de fundo dizendo “E essa terra é o que?” pra que o povo erguesse os copos de cerveja e cantassem “terra adorada! Entre outras mil és tu Brasil é pátria amada”.

“E os filhos?!”, diz a Beth! E o povo repete o refrão.

Que sonho. Aliás… “sonho meu… Sonho meu…”…

RicaPerrone

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