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Só garotos

Hoje eu não ia no estádio. Estava num dia ruim, numa semana horrível. Nem queria ir, pra se ter idéia. Mas, meu amigo disse que não iria também se eu não fosse. Então, como que por instinto masculino de companheirismo eu logo disse que “então eu vou”.

Fomos.

Lá chegando pegamos nossos ingressos e fomos até a arquibancada do São Paulo. Tem um detalhe aí relevante pro contexto da história que quero contar.  O amigo em questão é o ator Caio Paduan, da Globo. E eu, num estádio, estou entre leitores. É o único lugar do mundo que sou “conhecido”.

É um pouco desconfortável. Por mais que seja frescura, você reage mais timidamente ao saber que pessoas te olham e te conhecem. Então, comportados, nos sentamos e assistimos ao jogo.

1×0. 1×1. 2×1. 3×1. Fudeu.

“Vamos cair”.

38 do segundo tempo. 3×1 pro Botafogo. O placar avisa: “Torcedor visitante, saia antes dos 40 minutos ou apenas após toda a torcida do Botafogo deixar o estádio”.

– Vamo?
– Vamo né? A gente tem que dar a volta pra pegar o carro…
– Só mais esse lance. Vai que…
– É, vai que…

Gol! Ficamos.

 

E nos 6 minutos seguintes não havia dois adultos sentados mais ali. Menos ainda qualquer cerimônia pelo fato de algumas pessoas saberem de quem se tratava.  Era pulo na cadeira, abraço no tio do sorvete, pica pra torcida adversária, gritos inconsequentes de músicas que nem sabíamos cantar.

Em determinado momento o hino ecoava pelo silencioso Nilton Santos. Nós cantávamos o orgulho de ter buscado o empate quando, no meio disso, Marcos Guilherme é lançado, Deus abre as nuvens sobre o estádio, aparece e grita “não cai, porra!”.

Sim, eu vi Deus. E ele falou “porra”. Juro.

Ali, naquele minuto, um jovem estreante que até ontem mal sabíamos o nome, fez dois adultos voltarem a ser apenas garotos.  Não havia mais qualquer problema na minha semana, e o Caio sequer sabia que precisava da voz pra gravar novela. Futebol em estado puro. Amor incondicional, real e surreal.

Jogos para sempre. Dias que valem a pena ter vivido. Momentos que colocam a vida no lugar.  Se eu tinha problemas, não lembro. Se por algum motivo eu pensei em sair com 40 do segundo tempo, foi por mera burrice e falta de memória de que se tratava de uma partida de futebol. Um surto.

Peço perdão aos deuses do futebol por tal absurdo ter passado em minha mente.

Fomos ao ônibus do time abraçar o Rodrigo Caio.  “Que que foi isso moleque!?”.  Não, não. Foi ele quem disse isso, não nós.

“O Hernanes joga pra caralho!”, idem. Foi ele.

Um garoto. Profissional, da seleção, rico, mas após um 4×3 desses, apenas um garoto vestindo a camisa que sonhou quando criança. E nós, ali, mais garotos ainda, olhando pra um ídolo mais novo que a gente.

Ainda ameaçado de cair, lhes informo: não cai!

Porque? Se eu ainda precisar explicar após este sábado é porque você não entendeu nada sobre o São Paulo. E se não entendeu hoje, eu nem vou tentar explicar.  É grande demais pra sua concepção.

Obrigado pelo dia de garotos. Garotos “que te amam ternamente”.

abs,
RicaPerrone