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Pobre geração playstation

Durante as férias do futebol brasileiro achei que tinha conhecido o limite da babaquice nacional enquanto milhares de garotinhos virtuais choravam e gritavam pelos seus times de coração na internet. O Vasco? Palmeiras? Não…

Um festival de “meu Manchester”, “meus azuis”, entre outras aberrações choviam nas redes sociais enquanto as férias toleravam tal surto. Passou, rolou a bola, os “nossos times” de fato voltaram e pensei ter me livrado destes mini-baba-ovo-de-gringo.

Todo sábado de manhã, no twitter, você pode acompanhar o divertidíssimo ataque coletivo de pivetes alucinados achando que moram em Londres. Mas nas férias piorou.

Pensei ter acabado, me enganei. Domingo, enquanto tentava dormir, peguei o celular e olhei o twitter e o Facebook. Desliguei, liguei, olhei de novo. Pra ter certeza, reiniciei o aparelho.

Não era defeito. De fato existiam milhares de brasileiros vendo os jogos da NFL, que diga-se, acho bem legal. Entre eles, é claro, os mini-baba-vovo-de-gringo que citei há pouco. Estes, não satisfeitos em amar o Arsenal e discutir o esquema tático do Atletico de Bilbao como se alguém tivesse algum interesse naquilo, resolveram surtar com bola oval.

“Meu Deus! Estou chorando, que emoção! Estamos na final!”, dizia um mini-doentinho. Quando li cheguei a abrir a classificação do carioca pra ver se já tinha alguém nas semifinais da Guanabara. Mas não.

Depois abro o Facebook e tem dezenas cornetando, putos, como se estivessem realmente arrasados pela eliminação de um dos clubes. “Não consigo dormir…”, dizia um dos futuros presidentes de Ong.

Eu entendo a dificuldade de se ter 16 anos. Ja tive, era uma peste e, como todos, tentava aparecer pros mais velhos sendo diferente. Na web, algo que não tinha quando eu era garoto, você pode aparecer pra muito mais gente do que só seus pais. Então, atrás de um computador, se torna um conhecedor de alguma coisa.

Nada melhor do que conhecer a fundo algo que ninguém questiona, afinal, ninguém conhece e nem se importa. E não, não é uma idéia, é um número. Tirando a Champions League, o número de pessoas que se importa com o futebol europeu e NFL beira o ridículo. Mas, são barulhentos.

Não me preocupa o que estes fazem ou vivem. Me preocupa a imagem falsa que propagam. Atestada por emissoras sem direito de passar nada, aumentam e enganam o povo dizendo que o futebol europeu é isso, aquilo, etc. Insinuam que o Brasil parou pra ver NFL, mas não deu 1 ponto no ibope. Os que viram, todos, estavam no twitter.

Os que leem aquilo, quase todos, devem achar que está bombando. Mas é mentira. Dez gritando chamam mais atenção do que 1000 parados olhando. Todos que estão assistindo NFL tem alguma necessidade de dizer isso, não é dificil imaginar porque. Afinal, se não contar, não tem graça ver. Porque não é sério que eu sofro por isso, que fico mal, etc. Eu faço tipo pra ser especial. Né?

Especial que, no caso, pode ser chamado de “bobo alegre”.

Pobres garotos que acham “encantador” assistir o Chelsea, São Caetano com dono rico, e esquecem de crescer curtindo um estádio cheio com pernil na porta e tendo que assistir tudo em pé.

Pobre geração deslumbrada que acredita estar sentindo algo especial por um clube de futebol americano. Pobre daquele que , de fato, sentir.

Sempre achei minha infância maravilhosa, tenho ótimas recordações de tudo que vivi. Mas hoje, vendo o que vejo por aí, especialmente na web, terra onde os filhos de condominio fechado ganham voz, sinto-me um privilegiado. Vi futebol, tomei sorvete no estádio, tomei chuva, fui no jogo escondido, fiquei de castigo, idolatrei jogador grosso, gastei mais do que podia por uma bandeira, pedi camisa de natal e tudo mais.

Mas foi tudo real. Minha juventude não se desmancha na minha frente quando alguém desliga a tv a cabo.

Volta par terra, molecada! Paixão temos por aquilo que existe na nossa frente. O que não vimos, vivemos ou podemos chegar perto não é paixão, é grife.

Quarta tem Flamengo na Libertadores, Barcelona e Real na Copa do Rei. Abra seu twitter e divirta-se.

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– Tradução anti-email mala:  Não questiono, jamais, quem assiste ou gosta. Até eu gosto! Questiono a forçada de barra que há entre assistir e se colocar como um alucinado apaixonado por algo que não é seu. Ou, onde acredito ser 90% dos casos, fazer tipo para ser diferente.

– Coluna publicada no RJSports, como acontece toda terça-feira.

abs,
RicaPerrone

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