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O perrengue é fundamental

Ontem estive no Fluminense. Mário Bittencourt lançou a candidatura dele a presidente e e fui abraçar o amigo neste dia especial pra ele. Antes de qualquer coisa, quero registrar que sequer conheço os candidatos do Fluminense, não estou nem aí pra disputa eleitoral, e me senti sim na “obrigação” de prestigiar um amigo. Portanto, se você acha que eu não deveria ter ido, foda-se.

Esclarecido este ponto, vamos ao que importa.

 

Eram centenas. Senhores, jovens, mulheres, torcedores fanáticos, amigos dos candidatos que talvez nem fosse tricolores.  No salão nobre, cercado de história por todos os lados e de gente que briga, discute e perde horas por semana tentando melhorar aquilo que ama.

Eu olho em volta, vejo exatamente o mesmo cenário de qualquer clube grande do país. Mudam as cores, o local, mas as pessoas são quase as mesmas. Senhores que ajudaram a fundar o clube, netos entrando na política, turma jovem engajada, esposas que fizeram turmas, gente de terno, gente de camiseta. Todos apaixonados por aquele clube.

E naquele cenário caótico onde disputa-se um cargo não remunerado que destruirá sua vida pessoal, eu tenho mais e mais certeza de que os clubes, hoje, deveriam ter dono. Sim, ser vendidos como empresas. Embora odeie a idéia, é o que tenho hoje como sustentável.

E então eu no mesmo momento que penso isso com a razão, meu coração olha para aquelas pessoas todas e se pergunta “o que as moverá se alguém que não elas puder gerir este clube?”.

A razão logo me diz que torcedor quer ganhar e, portanto, se estiver ganhando ele não quer saber de nada. Mas eu fui um torcedor desses. Nas mais diversas esferas desde os meus 93 dias de vida, onde entrei no meu clube pela primeira vez e nunca mais sai.

Eu costumo defender uma tese racionalmente indefensável. Mas que todo torcedor de arquibancada acima de 30 anos me entenderá. “O perrengue é fundamental”.

A fila, o caos, o aperto. A participação, a oposição, a perda de tempo. A briga com a esposa, a dificuldade de estacionar. Sem isso, não suamos para vencer. Apenas assistimos alguém fazer isso por nós. O que nos faz parte é exatamente “o perrengue”.

Como isso pode coexistir? Profissionalismo é o fim do perrengue.

Mas quem disse que eu não quero pegar a fila? Que graça tem se esses caras não tiverem que ser voluntários numa campanha que acreditam numa terça-feira a noite na cidade? Será que é mesmo um problema pra mim essa dificuldade de estacionar meu carro?

Ser “parte” é o que move muita gente. A crença de que o clube “precisa de você” é o que nos faz passar o perrengue, e toda vez que invertemos essa lógica para algo “teatral” onde devemos ir se “o espetáculo for bom” e ponto final, estamos minando essas pessoas e dando espaço a um futebol que funciona, que dá lucro, mas que não sei se eu amaria.

abs,
RicaPerrone

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