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Não há jornalismo esportivo

Pode parecer uma forma impactante de manchetar o post, mas não. Na real é o que penso, o que sempre defendi e o que me fez tomar os caminhos que tomei na vida.

O conceito base de jornalismo é a isenção. Você só pode fazer boa apuração e se comprometer com a verdade caso não tenha um lado na história. Infelizmente o jornalista é criado para ser polícia, juiz, médico, advogado, treinador, tudo! Menos ter o bom senso de se colocar em seu devido lugar.

Você não pode fazer “jornalismo” sobre um tema cujo seu chefe é parceiro comercial dele.  Simplesmente não há uma forma de se fazer isso. E por mais que eu acredite na boa fé dos colegas, eu não acredito que qualquer princípio ético fique acima do dinheiro em 2017.

Sou prático, quase cético com isso. Se você é um comunista, não trabalhe na Fox ou na ESPN. Ou todo dia ao ir trabalhar você levará um soco na cara da realidade provando que você não tem razão, ideal e nem coerência.

Se você acredita em jornalismo esportivo isento, procure alguém da Globo pedindo o fim do monopólio nas transmissões.  Não encontrará e não porque o jornalista é ruim. Mas porque é funcionário de uma emissora que COMPRA um evento de entretenimento.

Ninguém faz dossiê de filme porque cinema é entretenimento. E esporte, para os mais evoluídos mercados do mundo, idem. Logo, não faz qualquer sentido eu contratar pessoas para emitir opiniões ou expor situações que joguem CONTRA o produto que eu comprei.  É uma questão lógica, de mercado, de dinheiro.

O Esporte Interativo vai falar livremente do problema ontem no Paraná. Porque pode falar. É não apenas “livre” quando ao tema como interessado na quebra desse sistema. Logo, seus funcionários podem opinar. Isso não quer dizer, em momento algum, que eles estejam sendo manipulados. Apenas que estão autorizados.

Nenhum deles, óbvio, diria isso na Globo. Simplesmente porque todos tem família e conta pra pagar amanhã cedo. E essa lógica tão lógica é escondida em meio a discursos hipócritas sobre ideal, jornalismo, verdade, etc, etc, etc.

Não há.

E se houver, é burrice. Vendemos um sonho, ponto. Toda vez que tentarmos acordar as pessoas dele, perdemos dinheiro. E com isso o mercado vai sempre impor limitações irrefutáveis ao chamado “jornalismo”.

Somos apresentadores de um show. Um elo entre você e sua paixão. Mas não somos e nem  podemos ser isentos sendo funcionários de um parceiro comercial do que apuramos.

E, no melhor dos casos, somos dependentes do que cobrimos para termos sucesso. Logo, se cubro futebol no Rio, o defendo. E não é papel de jornalista “defender” nada.

O jornalismo esportivo não existe. E é por acreditar nisso que nunca fiz parte dele.

As vezes, como ontem no twitter, as pessoas acham que estou falando “mal de alguém”  por isso. Mas não. Eu apenas consigo identificar cenários fáceis de expor o que penso como o de ontem, onde claramente os funcionários do EI podiam tocar no assunto e os da Globo não.

Isso não faz com que eu concorde com um ou outro. Aliás, todo mundo sabe que concordo com o pessoal do EI, o fim do monopólio, os acordos individuais respeitados, etc. Mas o fato de terem lados estabelecidos por vinculo empregatício determina que não ha isenção. E se não há isenção, não há jornalismo.

Sabe porque os blogs, sites de torcedores e mídia especializadas formadas por não jornalistas estão tomando a audiencia da imprensa? Porque eles não são profissionais mas nem se colocam dessa forma. É, pelo menos, mais honesto.

Aceitemos. Vendemos um show. Nada mais. E vende-lo menosprezando-o é de uma burrice ímpar.

abs,
RicaPerrone