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Maracanã à carbonara

Lucca é um amigo italiano que está de férias no Brasil. Torcedor da Juventus, apaixonado por futebol como qualquer homem que se preze, queria o Maracanã.

Fui logo avisando que não era bem o Maracanã. Mas até era.

Vascaínos e botafoguenses andando nas ruas como se as camisas não os identificassem. Uma volta no gigante, uma rampa pra cansar e, enfim, cadeiras para sentar e assistir ao tal “Botafogo x Vasco”.

Sua primeira reação foi perguntar muito sobre os clubes, o que me deixa triste. Afinal, sabemos tudo dos times de lá, mas eles não sabem nada sobre os nossos.

Depois, já dentro do estádio, olhou e comentou que “não era tão grande assim”.  Eu ri, porque de fato, não é mais.

Contei quem eram os dois clubes a se enfrentar. Os conhecia, mas sem detalhes. Então, falei do passado, da importância dos dois, dos ídolos, ele logo sentiu o tamanho da partida que teria pela frente.

Fomos na torcida do Botafogo, já que ele queria aplaudir Seedorf, e os ingressos nos setores “neutros” eu preferi economizar pra poder comprar uma passagem de avião pra Maceió. Mesmo preço.

Bola rolando, bandeiras no alto, muita festa, e um jogo onde o Botafogo sobrava. Seu toque de bola era assustadoramente envolvente, o Vasco parecia perdido. Tomou logo 2, e ficou barato.

Ele me olhou e disse:  “São mais técnicos. Nosso jogo é tático. Mais veloz.”, como que aprovando o que via. E acredite, eles nunca assistem jogo nenhum daqui. Portanto, é novidade. Lá nem passa.

Contei que Rafael Marques era o “menos técnico” daquele ataque. Fiquei sem graça no fim.

Lá pra metade do primeiro tempo, após belissimos passes, lances de gol e jogadas de efeito, ele me disse preferir este tipo de jogo ao italiano. E aplaudiu o segundo gol do Botafogo.

Tirava fotos, filmava, olhava e não dizia. Mas eu sei no que ele pensava. Qualquer pessoa pensaria repetidamente a frase: “Caralho, eu to no Maracanã”.

E o Botafogo deitava, rolava, só não fingia de morto.

Quem fingia era o Vasco, que logo acordaria num gol pornográfico.

Éder Luis, o que não pensa, pensou. E Juninho, o que brilha, brilhou.  André, o que leva a fama, levou.

Sim, pornográfico. Foi foda.

Explosão do lado de lá.  Silêncio de cá, o jogo muda em questão de 10 segundos.

Agora o Vasco agride, o Botafogo se encolhe, a torcida de lá pula, a de cá reza. E ele olha encantado com a mudança rápida da partida e me olha com dúvida. Eu respondo apenas: “É clássico, amigo”. Ele entendeu.

Disse que as torcidas aqui são muito mais empolgadas que as da Itália, e que não passam o jogo todo xingando a adversária, como fazem em seu país.  Me orgulhei. Até o incentivei a cantar o “ninguém cala”. Foi por pouco.

Enfim, voltemos.

Segundo tempo.  Gol do Vasco.

E ele me diz: “Não estou acostumado com um jogo tão técnico e com tantos gols. É belissimo!”.

Pra minha sorte ele via um Botafogo que dava gosto, um Vasco que dava o sangue.  Um jogo de dar orgulho.

Já dava seus pitacos. Enquanto Rafael Marques o confundia.

Um golaço, alta técnica, no angulo. E esse era o cara que eu chamei de “grosso” antes do jogo?

Fim de papo. Vamos pra casa, junto das duas torcidas, sem violência.

Pra Itália volta um encantado torcedor que vai dizer que “lá no Brasil não é como aqui. Eles não brigam, fazem muitos gols, jogam bonito…”.

Queria ter contado a ele que pra nós era um jogo entre o “sem elenco” e o “candidato a rebaixamento”.  Talvez explicar a crise no Vasco, ou a falta de confiança do Botafogo. Repetir os “poréns” que sempre nos fazem menos.

Mas não adianta. Depois do que viu, não entenderia.

Lucca viu o “time do Garrincha” vencer o “time do Romário”. No Maracanã, sagrado, onde ele não passou nenhum aperto pra entrar, assistir e sair.  Diante de duas torcidas enormes, eufóricas, dando um show de paz e incentivo.

Lucca não é jornalista. Infelizmente.

abs,
RicaPerrone