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Gente de pouca fé

Quando eu era pequeno não havia internet para conferir a opinião de todos sobre tudo. Quando garoto eu esperava o jornal, talvez até a revista do final de semana para ter uma informação e, a partir dela, ouvia meus pais discutirem e darem suas opiniões.

Havia pessimismo, sempre houve, sempre haverá. Somos um mundo falido, cheio de problemas, buscamos coisas em direções diferentes, quase invariavelmente nos decepcionamos com nós mesmos.

Mas havia também uma dose de credibilidade. Ao ouvir da boca do apresentador do jornal que havia sido X, era X. Pouco se questionava, até por não ter fatos para questionar.

Mudou.

Hoje, mesmo sem os fatos, a reação é totalmente oposta. Tão extrema e inocente quanto, mas muito mais movida ao descrédito geral do que qualquer outra coisa.

Eu honestamente não me importo com o que você acha sobre o Bruno, o menino da Gaviões ou sobre a malandragem do Ronaldinho no gol contra o São Paulo. São casos diferentes, cheios de “poréns”, impossíveis de se decretar alguma coisa de fora, mas ainda assim, julgados sob a certeza da desconfiança.

Num caso tudo que é dito é tido como mentira. Em outro, qualquer movimento é transformado num complô, que envolve do carnaval a televisão. No ultimo, muito mais leve, mas não menos discutido no “dia seguinte”, decretamos a intenção alheia conforme nos convém.

A certeza da intenção alheia sempre será apenas um palpite. Ninguém nunca terá 100% de certeza sobre o que passa na cabeça do outro, mesmo que o outro diga. Até porque, se disser, não acreditaremos.

Antes de ver o garoto do Corinthians na tv, todas as pessoas falavam em “golpe”, “manobra”, “mentira”. Antes de qualquer nova notícia que não fosse a “morte de um torcedor”, na madrugada de quinta-feira quase todos tinham uma opinião formada e um culpado.

Bruno é julgado há, sei lá, uns 2 anos. Está preso, não há corpo, não há conclusão final objetiva e nunca haverá um final claro. Há fé, desconfiança, mas jamais veremos um replay em hd da morte da menina e seus “melhores momentos”.

O que pensa em acreditar é de imediato o “imbecil”. O que não acredita em nada, que tem certeza ser suficientemente inteligente para não ser “enganado”, o malandro.

“Só voce pra acreditar nisso…”. “Ah faça me o favor! É óbvio que é mentira!”.  “Tem que ser otário pra entrar nessa”. “Tenho certeza que é armado”.

Malandro, portanto, é aquele que acredita ser feito de bobo em tudo que está a sua volta e não consegue reagir.

Tolo, hoje, é aquele que ainda carrega dentro dele a fé de ouvir, as vezes, a verdade.

Malandro, hoje, é o corno manso. Ele pode ser corno, mas é tão malandro que diz “saber” da traição.

O outro, o que sofre bullyng dos malandros, é aquele que tenta ouvir, ler e separar, achar motivos para acreditar e tentar entender que não deve se revoltar, afinal, não é feito de idiota o dia todo.

O malandro é, e sabe. E acha “do caralho” saber disso.

Afinal, o que pode ser mais genial do que rir e descreditar de algo que te consome todos os dias? Que fenomeno de malandragem é esse que te faz jurar saber de todo um esquema para manipular sua fé e ainda assim te faz sentar, pagar e assistir?

Não temos mais fé. Ou, quando temos, ficamos com vergonha de ter.

Com motivos, uma dose de idiotice, outra de vontade de ser o espertão, mas no fundo, virou uma regra. Se você acreditar no que está sendo dito, é otário. Se duvidar, é malandro.

Os dois vão continuar vivendo aquilo e discutindo na segunda-feira. Uns porque se acham malandros. Outros porque são otários.

No fundo, por arrogância.  Minha, sua, de todos em volta.

Só há uma coisa pior do que fazer alguém de bobo.

Achar que está sendo feito de bobo.

A maioria tem quase sempre certeza.

Certeza de não saber o que está falando, duvidar do que está ouvindo e não fazer idéia de onde encontrar a verdade.

Grande merda ter certeza da dúvida em troca de uma afirmação.

Até porque pode ser só auto-afirmação.

abs,
RicaPerrone