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Dunga, o prato cheio

É foda falar da volta de Dunga.  Não pela contratação em si, ainda nem confirmada, mas pela circunstancia bizarra em que acontece.  Na verdade tudo foi colocado de forma tão precipitada após o 7×1 que qualquer decisão que não fosse Leonardo e Caetano na diretoria e Tite ou Guardiola como treinador seria tomada como “errada”.

Dunga mexe em 3 lados de uma mesma história, mas que precisam ser muito bem separados.

O futebol brasileiro –  A seleção, no máximo, reflete alguma coisa do futebol brasileiro. Nunca foi termômetro de merda nenhuma pois ela só tem como ser a consequência de qualquer problema e não a causa. Não será um cara treinando um time de jogadores que atuam na Europa uma vez a cada 2 meses num treino escroto de 20 minutos que fará alguma diferença nos conceitos básicos do futebol brasileiro.

Se você realmente está preocupado com o nosso futebol e entende que precisamos mudar, entenda também por onde. Não é pela ponta do iceberg. A seleção é a mais tosca forma de avaliar este resultado já que os jogadores que lá estão não fazem parte do ‘futebol brasileiro’.

Portanto, com Dunga, Mourinho, Guardiola ou Joel Santana, nada disso teria qualquer impacto no futebol praticado no Brasil. E portanto, não seria nada além de um time europeu treinado de vez em nunca pra ganhar amistosos.

O treinador – Dunga merece?  Não. Não tem feito nada pra isso.  A vez era de Tite ou Cuca.  Mas Dunga fez um trabalho ruim na seleção?  Não. Nem mesmo o Alex Escobar pode dizer isso.

Ele venceu todas as competições que participou, goleou a Argentina 2 vezes, arrebentou nas eliminatórias e na Copa perdemos pra Holanda por meio tempo ruim e por falhas individuais que “acontecem”. Isso numa geração anterior a esta que era tão fraca ou pior do que essa.

Seu trabalho na seleção foi muito bom.  Mas ele não sabe lidar com a mídia.

A escolha –  A decisão de quem será o treinador não tem relação com o que eu ou você achamos do Dunga como pessoa.  Mas é óbvio que para o bom andamento da coisa é também importante que seja um cara que consiga dialogar com a mídia, se é que alguém no mundo ainda consegue ter uma relação não animalesca com a imprensa sendo técnico da seleção brasileira e carregando no ombro birras da mídia com a CBF transferidas pro campo de jogo.

Mas tendo que ser assim, Dunga não é o cara. Não porque brigou com o Escobar, mas porque não tem paciência, tem muita magoa da mídia desde 1990 e não é o tipo do cara que vai permitir festinha no treinamento. Sabe aquelas que toda emissora usa, entra ao vivo e quando perde diz que não concorda? Então. Essa aí.

O técnico da seleção não tem absolutamente NADA a ver com a renovação do futebol brasileiro. Isso diz respeito a base, dirigentes, clubes, diretorias e mentalidade. A parte tática é o último dos nossos problemas, ainda que seja um deles.

A conclusão?

Que Dunga pode até ser o cara certo mas na hora errada. Que é um cara que não devia ser escolhido pelo momento e não pelo que foi feito quando lá esteve.  A idéia de colocar alguém que confronte brutalmente a mídia num momento desses é uma estratégia de marketing estúpida justamente na hora em que, mesmo perdendo como perdeu, o povo se reaproximou da seleção.

É um anúncio infeliz. Que eu não faria. Mas que não faria pela situação, não pelo trabalho que Dunga entregou até 2010.

E se for confirmado na terça, desejo sorte. A ele, a quem for fazer dos próximos 4 anos um inferno a cada amistoso e aos idiotas que farão disso motivo pra torcer mais ou menos pela nossa seleção.

O que tem de bom nisso tudo?

O fundo do poço é o exato momento em que você coloca os pés no chão. E é dali que você dá impulso pra subir de volta. Talvez estejamos colocando o pé e sentindo o fundo do poço.

Talvez.

Abs,
RicaPerrone

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