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Desculpa, Zico!

Vagando pelas obscuras vias do meu inconsciente, diante de melancolia e tristeza com a qual me pegava,  aos 40 do segundo tempo de Brasil e Holanda na copa de 2010, pensava o que fez com que essa fatídica desclassificação que estava por vir se dava.

Fazendo uma análise empírica de um apaixonado por futebol penso em algumas coisas, ouço outras das pessoas que assistiam a partida comigo, concordo com algumas, respeitosamente descordo de outras e dentre as circunstâncias abordadas, um consenso, a falta de um craque, que diante das adversidades chamasse a responsabilidade para si.

Como não poderia deixar de ser, vem a mente as copas passadas e os sentimentos vivos daqueles momentos,  a frustração de 2006 de uma seleção sem brilho, o orgulho da família Escolari ao som de “Deixa a vida me levar”, a surpresa de 1998 e o apagão diante da França, a estupenda euforia de 1994, o primeiro título que presenciei, ainda que muito contestado diante de um futebol não tão bonito, a agonia de 1990 e a desclassificação pelos pés de Maradona e Canigia, até que chego em 1986 e o pênalti desperdiçado por Zico.

Passei minha vida toda tendo certo repúdio em relação a este jogador. Por não ser flamenguista, só torci a favor quando vestia a camisa da seleção brasileira e ouvindo as história dos mais velhos relatando o prazer de ser campeão mundial, juntamente com a euforia de um garoto de 8 anos que vê seu sonho de também ver sua seleção campeã se desmoronar.

Neste exato momento, na vida adulta e revendo em pensamentos aqueles momentos, entendo o que aconteceu naquele dia, um craque que não se omitiu, não se escondeu. Quando criança não permitimos que um ídolo nos decepcione, quando adulto sabemos que seres humanos são dignos mesmo diante de um erro,  mas não diante de omissões. Alem disso é de se consideras as condições físicas do atleta que não jogou boa parte da copa por não ter condições, outro fator importante, tínhamos outro ser humano, muito competente, do outro lado que também representava muitas pessoas e o mais importante, se naquele momento não conseguiu atender as necessidade do ego dos torcedores, fez isto por muitas e muitas vezes em toda sua carreira como jogador, até do outro lado do mundo.

Por essa tristeza que ainda sinto e pela percepção que tenho da falta que faz um craque que “chama o jogo”, venho me retratar e peço desculpas por muito tempo  fazer injustiça, pautando minha reflexão futebolística em um egocentrismo infantil. E espero que as nossas novas gerações responsáveis por manter viva a tradição brasileira de um futebol vencedor e bonito se espelhe em ti, sem medo de errar e com vergonha de se omitir.

Thiago José de Biagio

* Thiago é meu amigo, sãopaulino, churrasqueiro, brahmeiro e sofreu comigo ontem no Brasil x Holanda.