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Criando monstros

Nossa carência por ídolos e bom futebol é cada dia mais gritante. Foi-se o tempo que a seleção brasileira era o objetivo maior da carreira de um jogador. Acabou aquela fase onde os garotos tinham que se firmar “primeiramente no Brasil pra depois sonhar com a Europa”, como eles repetem feito papagaio.

Hoje bastam 3  meses de bom futebol e você sai do time de juniores ao topo do mundo. Pode isso?

Você se lembra dos seus 18 anos? Eu me lembro dos meus. Era rebelde, irritadinho, me achava imortal, ou seja, era igual a todos. Se naquele momento da vida alguém me coloca na condição de gênio e me dá uma grana absurda, me coloca valendo milhões de euros e me leva pra seleção, eu fatalmente não saberia o que fazer.

E olha que eu tive berço. Nunca passei fome, morei bem, tive as coisas, não dá pra reclamar de nada. Imagine quem nunca teve conforto, luxo, etc.

O que fazemos com os garotos, e a foto é apenas um exemplo, é um tanto quanto covarde. Pegamos crianças sem noção, damos mais do que elas podem carregar e depois arrebentamos a vida delas quando elas derrubam o que não podiam carregar.

Neymar e Ganso foram de reservas do Santos a gênios indispensáveis da seleção brasileira principal em 3 meses de campeonato estadual. Tá certo isso?

Meses depois estava a mídia toda dizendo que o Neymar não tem cabeça, que o Ganso ficou metido, etc, etc, etc. Mas não eram estes que “salvariam” o Brasil na Copa?

Agora o Lucas, ex-Marcelinho, tem seus 4 ou 5 meses de bola. Ele está na seleção principal e tem a maior multa do futebol brasileiro, além de ter recebido um aumento de não sei quantos %.

Mais do que isso, já começaram os surtos de “é o novo….”.

Ontem ele foi o “novo Denner”, porque driblou 3. Amanhã, quando perder um pênalti, será o “novo Dodô”. E assim vai.

Só que ele tem 18 anos, como os citados no começo do texto. E com 18 obviamente ele não tem cabeça pra administrar tudo isso. Um sujeito bem estruturado de 40 anos tomaria um susto se fosse dormir comum e acordasse sendo salvação da pátria, gênio, rico, novo não sei quem. Imagine um garoto.

Ele pode ter a sorte de ser bem assessorado, o que é minoria. Mas não terá, fatalmente, nascido como Benjamin Button. Logo, aos 18, não terá como administrar tudo isso sem cometer alguns equivocos.

Equivocos que a mim e a você podem custar X. Pra um destes, pode custar um rótulo eterno.

Não, eu não acho o Lucas, o Neymar ou o Ganso menos do que pintam. Talvez se tornem até mais. Mas, note, há uma diferença entre SER e TER POTENCIAL PARA SER.

Hoje, Neymar, Ganso e Lucas são os 3 mais bem cotados jogadores do país a serem craques amanhã. Já são, mas uma carreira de 1 ano, 6 meses não é nada. Se pararem hoje, param sem ter feito nada demais.

Pela frente tem mais 15 anos. E o que eles farão desse tempo é também ditado pelo que cobramos deles.

Denílson e Robinho, novos Pelés, fizeram boas carreiras mas não foram o que nós esperavamos deles.

Talvez porque a gente tenha mania de procurar um ídolo rapido demais. Verdade que desde o Senna este posto nunca mais foi atingido no Brasil, e talvez um garoto driblador e marrento consiga, por ser a “cara do brasileiro”.

Mas ele precisa de mais. Precisa de limites, que é exatamente aquilo que a fama e o poder tiram de uma pessoa.

O Lucas não tem que ir pra seleção brasileira agora, nem o Damião. A seleção é o topo, não uma passagem.

A inversão destes valores mexe, também, nos degraus da carreira de um garoto.

Lucas tem tudo pra ser genial? Neymar? Ganso? Damião?

Tem bola. O resto eu não sei.

Me diga uma coisa. Depois do Ronaldo,  1994, que jogador que nós levamos a seleção como esperança de ser “o cara” e que ele se tornou o que esperávamos?

Talvez os últimos 15 anos sem conseguir revelar um Craque de personalidade decisiva na seleção brasileira  esteja nos dizendo alguma coisa.

abs,
RicaPerrone