Home » Diversos » Carnaval » A “ópera” do povo

A “ópera” do povo

Chegou o carnaval. Com ele, alegria, críticas, turistas, filosofos arrumando o que falar e intelectuais usando a web  para menosprezar o samba e as escolas de samba. Textos daqueles que citam com ironia o canto das escolas, que debocha a repetição de palavras, as formas de tratar a letra, além de vulgarizar o espetáculo a troco de parecer inteligente.

Eu sei que vivemos num mundo onde é mais importante parecer ser do que, de fato, ser. Sei que cada um gosta do que bem entender e sei que é direito de todos nós criticar algo, mesmo sem termos o conhecimento necessário para tal.

Mas se tem uma coisa no mundo que me irrita muito é a mania de brasileiro precisar parecer fã de gringo e menosprezar o que é nacional para parecer diferenciado.

Você, azedo intelectual, que faz da semana do carnaval uma enorme pauta para o auto-menosprezo, aprenda sobre o que está falando antes de sair “ensinando” errado.

O sambista não tem como referência as drogas. O que há por “trás” de escolas é o mesmo que há por trás de qualquer show ou evento de outro ritmo musical. Um traficante, um bando de babaca sustentando o poder do cara pelo prazer de fumar unzinho e uma “ajuda” dele a comunidade para ter facilidade de vender o que vende. Critique o usuário, não quem mora perto do traficante. Você sabe… quem sustenta aquela merda é o riquinho, não o cara da comunidade.

O sambista não costuma menosprezar ou ironizar outros ritmos. O sambista tem, em sua maioria, uma origem humilde sim, mas não menos honrada do que a sua ou de qualquer outro adorador de ópera.

O sambista tem sua referência no morro, mas saiba que lá a maioria das pessoas são boas. Rotular diferente é como achar que todo cidadão de Brasília é ladrão por causa dos políticos que lá trabalham. É burrice.

Se você não gosta de escola de samba, tudo bem. Se você acha uma perda de tempo, idem. Mas ao propagar seu ódio, tenha ao menos conhecimento do que está dizendo.

Falam em “música pobre”, e eu juro que tenho vontade de gargalhar.  Repetem “O Índio….”,  “Navegou…”, etc? Sim, é fato, é engraçado sacanear com isso.  Mas é ignorancia não saber os motivos.

Não há, caro azedo ignorante, nenhuma demonstração musical maior e mais culta do que o desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro.  Não há música popular em lugar algum que conte história relevante e com enorme riqueza cultural como os sambas de enredo.

Você não pode estar falando sério quando menospreza uma Imperatriz que vai levar ao povo do morro a história de Jorge Amado. Você não pode ser ignorante o suficiente para descer a lenha num ritmo ou num evento esquecendo do que há atrás dele.

Por trás de cada samba e mulatas na avenida, meu caro, há uma comunidade enorme em Bangu e Padre Miguel, por exemplo, que este ano aprenderam sobre Portinari. Algo que, sabemos, jamais aprenderiam sem o carnaval.

Homenagear ilustres brasileiros, grandes datas, feitos históricos ou apenas buscar um tema divertido fazem do carnaval a festa popular de maior riqueza cultural do planeta.

Você pode não entender “O indio….” ou o “naveguei….”. Mas aí vai da sua limitação não conseguir encaixar palavras e frases sobre determinado tema numa música.  Talvez você não entenda porque não saiba quem foi Portinari, talvez ignore Villa Lobos, talvez não consiga encontrar um elo entre a letra e a história.

Talvez você não consiga fazer um verso sobre Tiradentes. Mas como se sente ao saber que aquela letra inteira sobre ele foi feita por 3 ou 4 “pedreiros” do morro?

Talvez você ache que 400 pessoas tocando diversos instrumentos manuais ao mesmo tempo seja pobre musicalmente. Eu lamento, mas respeito.

Talvez você ache aquelas fantasias sem sentido, e eu volto a lamentar, agora pela sua falta de cultura ao não saber identificar o que elas dizem conforme a história contada ali.

E talvez, pior ainda, você não respeite a única festa do planeta onde o morro desce para ser aplaudido pelo rico. E se isso, pra você, é só uma festinha, para muita gente é questão de orgulho e auto-estima.

Se você não gosta, não goste. Se você não conhece, não menospreze.

E se quiser conhecer e entender, estude. Pois ignorantes não conseguem acompanhar o nível cultural da letra e do que é demonstrado pelas comunidades carentes na avenida.

Em 1 semana estarei na arquibancada rodeado de amigos, sambando, cantando, rindo e aprendendo um pouco mais sobre Jorge Amado, os musicais, Portinari, a Bahia, Angola, a raiz do samba do Rio no Cacique, entre tantos outros.

E você, azedão? Vai passar o dia no twitter tentando menosprezar cada fantasia em virtude de não ter nível para entende-las?

abs,
RicaPerrone