Punzinho do além

Essa aconteceu há alguns anos, e deu medo.

Me levaram num centro espírita para tomar um passe. Não conhecia bem isso, aliás, odeio religião e tenho minhas crenças independente de todas elas. Mas, como meu avô pediu, eu fui.

Lá chegando tinha uma turma de branco, uma fila enorme de gente e um silencio com uma mesa cheia de gente de olhos fechados que diziam, repetidamente: “Graças a Deus, graças a Jesus”. E ficava nisso.

Na outra mesa as pessoas sentavam e tomavam passe. Até aí, ta em casa.
Até que veio uma moça me dar o passe. Meu avô sentado do lado, aquele puta silencio, aquele povo todo concentrado, aquele climão pesado de religião e espiritismo assustador, que era o clima da casa.

A casa, diga-se, era um casarão antigo, meio abandonado, escuro… dava pra rodar um filme de terror ali tranquilão!

Bom, voltemos ao passe.

Estou sentado, a mulher veio e começou a fazer aqueles movimentos com as mãos. Eu ali, de olhos fechados. De repente a mulher solta um pum….

Rapaz…… mas nem se viesse Jesus Cristo e me pedisse para parar de rir eu conseguia. Aquele puta silencio e eu na frente da tia que peida. Ela tem a ser favor o argumento de dizer que “não era ela”, mas até ai… continuava engraçado.

Meu avô me cutucava meio que na base do “cala a boca pelo amor de Deus”, e eu roxo, segurando a gargalhada e os olhos escorrendo lagrima de tanta vontade de rir alto.

A mulher, pra ajudar, não saia da minha frente. Ela tentava dar o passe e eu ria, ria, ria, ficava vermelho, chorava e prendia uma gargalhada que acordaria até quem já tinha dormido ali.

Até que ela abriu um dos olhos levemente, me olhou e passou para o próximo. Na hora de levantar, ela disse: “Você vai precisar de choque”.

Cara… eu pensei em tomada, porrada coletiva, corredor polonês, espancamento de espírito, a mulher do espelho, tudo que era possível! Parei de rir na hora, afinal, virou pânico!

Porque todo mundo podia ir e tomar passe eu ia ter que ficar esperado pra tomar choque? Pra ajudar, todos saiam e sentavam numa bancada. La já estavam 200 pessoas, e do outro lado só um: eu!

Até hoje acho que foi pra me assustar, uma espécie de troco. “Ah é? Vai rir do meu peido? Então agora você vai se cagar… de medo!”.

E assim foi, até que terminou. Quando acabou, todos olhando, as 10 mulheres que davam passe me chamaram e fizeram um circulo em volta de mim. Ali eu tive certeza que seria espancado! Já imaginei em qual eu ia bater primeiro pra tentar correr, coisas do tipo.

Era o tal choque. Um passe coletivo, que segundo a Rainha da colméia la foi necessário porque não deu pra me dar o passe individual.

No final ela me diz, orgulhosa: “Você precisou de 10 para te dar o passe. Tem uma mediunidade enorme, garoto”.

Ok…

Eu é que não ia explicar pra chefona do esquema lá que só não entrou porque eu me matei de rir em virtude do peidinho da colega dela, né?

E assim foi. Com meia hora de sermão do avô, que me dizia ser um desrespeito rir naquela hora.

Tá, eu sei. Mas eu acho bem mais falta de educação soltar um punzinho do além do que uma risada na terra. Mas, enfim… cada um, cada um né?

Abs,
RicaPerrone

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